Sonhei que eu morava numa casa e era muito feliz. Com o passar dos anos, muitas pessoas, passaram pela minha casa e pela minha vida, e alguns me conquistaram, deixaram eu me apaixonar, me fizeram promessas, me iludiram, depois me magoaram, alguns me maltrataram e até me fizeram chorar. Minhas lágrimas haviam secado e eu tinha feito uma promessa a mim mesma: nunca mais vou deixar ninguém entrar na minha casa, receber todo o meu carinho e jogar no lixo. Então, eu havia mandado construirem um muro bem alto, mas bem alto mesmo, cheio de proteção, com cacos de vidro e fio de alta tensão. Eu estava totalmente desiludida e decidi que viveria sozinha na minha casa. Éramos só eu, a lua e o sol. Apesar de me contentar em ficar com os dois, eu sempre queria chegar às nuvens, mas com uma casa cercada e isolada do resto do mundo, não ia ser muito fácil, porque eu tinha que manter meus pés no chão. Desde então, quando alguém chegava a minha casa, falava comigo do outro lado do muro. Eu vivia sozinha, mas de vez em quando, um anjinho, com auréola e asas, aparecia e me distraía. Parecia menina e era minha melhor amiga, aliás a única que eu tinha. Enquanto estavamos brincando no meu estreito quintal, pois a maior parte havia sido ocupada pelo muro, ela me disse que ia muito ao lado de fora, e que a cada dia fazia novas amizades, enquanto eu ficava em casa escondida pra não me machucar. Foi numa noite, quando já estava acostumada a vir na minha casa, ela trouxe um amigo, mas pediu que ele esperasse do lado de fora enquanto falava comigo. Ela era um anjo que voava e conseguia entrar na minha casa, ele era um garoto, uma pessoa normal que não ia passar pelo muro, o que o deixou intrigado. Um dia, ele voltou à minha casa sem o anjo, ficou rodeando o muro, pensava, tentou escalar, pulava e nada. Voltou no dia seguinte, pulou e nada. No outro dia, de novo, nada. Só que o menino não se dava conta de que a cada vez que ele vinha e pulava pra tentar passar sobre o muro, seus pulos iam ficando cada vez mais altos e de repente ele começou a voar. Foi quando um dia que eu me levantei de manhã e vi aquele garoto danado sentado no meu quintal e descansando. Cheguei perto dele, conversamos, rimos, brincamos. Eu não me divertia assim há muito tempo, tinha esquecido até mesmo como era sorrir. E em algum momento ele me perguntou:
-Você quer voar? Eu te levo até as nuvens!
-Adoraria, mas morro de medo de altura. Tenho medo de cair. Pode ser só perto das nuvens?
-Pode! Vamos!
Eu devia ter suspeitado. O garoto era danado, uma mala sem alça (um container), que aprendeu a voar, atravessou meu muro, com certeza ele não ia me deixar perto, ele ia me levar lá. Quando foi ficando alto, eu olhava pro chão e dizia que já estávamos muito longe e que estava bom e ele me dizia "Só mais um pouquinho!" e eu ficava quieta. Então resolvi deixar meu medo de lado, pois eu sabia que ele ia me segurar, confiava nele, não ia me deixar cair. Assim chegamos bem perto de uma nuvem, era só esticar meu braço e eu encostava. Era lindo! Quando eu estava com a ponta do dedo quase tocando na nuvem, ele me soltou. A partir de então, não sei o que aconteceu, pois eu acordei. Lembro perfeitamente do rosto, do toque, do olhar, do cheiro e da voz dele. Lembro também da queda. Não entendi nada, após tanta insistência pra me levar lá em cima, ele me deixa cair? É estranho e intrigante. Quando eu fico parada, me pego pensando nisso, mas não sei o motivo, afinal, foi só um sonho, né?
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